Rosa Brochado

 

 

Curso de Educadores de Infância; Formadora acreditada pelo Conselho Científico de Braga, desde 1991; DESE em Educação Especial - Problemas Intelectuais, Motores e Dificuldades Múltiplas, pelo Instituto Piaget, de Almada, desde 1995; parte curricular do curso de Pós-Graduação em Ciências e Técnicas do corpo, pela FMH, em 1996; curso de Pós-Graduação em Alunos Cegos e com Baixa Visão, pela ULHT, desde 2013; Atualmemte: Docente de Educação Especial no Agrupamento de Escolas D. João II).

 


 

Título da comunicação
"Ver com outros olhos"

 

Falar de “Ver com outros olhos” é falar de Louis Braille, e do seu gigante contributo para a evolução e o desenvolvimento das pessoas cegas: “se os meus olhos não me deixam obter informações sobre homens e eventos, sobre ideias e doutrinas, terei de encontrar uma outra forma. " Indubitavelmente, esta ideia constituiu o ponto de partida para a maravilhosa invenção que é o Braille, comemorado no passado dia 4 deste mês.

O Professor Doutor Augusto Deodato Guerreiro “escreveu num dos seus imensos livros: “O Braille é o meio natural de leitura e escrita das pessoas cegas. É a forma mais Inclusiva, que dá ao cego o sentido de Sociedade, e do seu lugar nessa mesma Sociedade”. E, do meu ponto de vista pessoal, é de facto indiscutível a importância da aprendizagem da escrita e leitura do Braille, pois pude constatar, ao longo da experiência com alunos cegos, que esta aprendizagem permite um imensurável domínio em termos de conceção, compreensão e diversidade de vocabulário, de correção ortográfica e de ampliação de conhecimentos.

Perante o tema que me foi apresentado, e sendo eu Docente de Educação Especial, não posso deixar de tecer aqui alguns considerandos que considero pertinentes e relevantes, e que não me vão ser possíveis abordar ma minha comunicação, dada a escassez de tempo para o tanto que haveria a dizer… O foco incide na Educação, pelo que não posso deixar de abordar as Escolas de referência para a Educação de Alunos Cegos e com Baixa Visão. Na minha ótica pessoal, é imprescindível que, no caso concreto, ou em qualquer outra escola que inclua alunos com esta problemática específica, exista um Docente de Educação Especial que possua um determinado perfil e conhecimentos especializados, específicos e diversificados, que possam dar uma resposta ajustada, adequada, e de qualidade, a alunos de várias faixas etárias. Compete ao referido Docente estar dotado ou dotar-se de conhecimentos ao nível da Literacia Braille nos vários domínios/áreas, mas também, tão importante no Mundo atual, conhecimentos de Tiflotecnologia (deve ter informação adequada relativamente à elaboração de imagens táteis, maquetes táteis, ter acessíveis os Cadernos da Comissão Nacional de Braille das várias áreas e informação/domínio de teclas de atalho dos diversos leitores de ecrã, dos ampliadores, do Braille Fácil, e de outros programas como o Internet Explorer, etc., não esquecendo a área importantíssima da Orientação e Mobilidade. Não podem ser esquecidas as Bibliotecas Escolares, que devem estar apetrechadas de uma quantidade bastante razoável de livros essencialmente em Formato Braille, e alguns também em formato áudio, ajustados às diversas faixas etárias, dos 3 aos 15/18. Os mesmos deverão ficar disponíveis em estantes devidamente etiquetadas em Braille. Também neste espaço, um dos computadores aí instalados deve integrar um leitor de ecrã, tornando possível ao aluno efetuar pesquisas, em pé de igualdade com os seus pares. As informações colocadas em placares, deverão estar igualmente acessíveis no formato Braille ou em formato ampliado, a uma altura adequada.

O Braille tem que ser iniciado no Pré-escolar onde, para além do domínio de conteúdos relativos às orientações curriculares, etapas de desenvolvimento da criança e informação da especificidade da problemática de alunos cegos e com baixa visão para as idades em questão, o Docente tem que proporcionar atividades de pré-Braille (noção da célula Braille, exploração tátil dos pontos que a constituem, comparação/distinção entre pontos, contacto com a máquina Braille, posicionamento correto dos dedos, alternância dos mesmos, etc.), essenciais e fundamentais antes da entrada no 1º ciclo. Para além destes aspetos, antes do término do último ano deste nível de ensino o Docente tem, de forma calma e gradual, ir preparando o aluno para a transição no ano sequente ao novo ciclo, dotando os possíveis intervenientes, docentes e assistentes operacionais de conhecimentos de Braille, em termos de aprendizagem conceptual, e experienciação, pois o aluno deverá acompanhar o currículo em paralelo com os seus pares, com vista a uma aprendizagem que se processe de forma o mais normal e natural possível, em nada diferente em termos de conteúdos, apenas na forma de os apreender e aprender/interiorizar/consolidar. No primeiro ciclo, pretende-se, sobretudo, que os alunos adquiram e desenvolvam ao máximo as suas capacidades, ao nível da leitura, escrita e cálculo. Portanto, na minha perspetiva pessoal, não entendo que neste nível de ensino se deva pensar já na Tiflotecnologia, pois pode correr-se o risco de não se investir o suficiente no Braille (excetuando quando ocorrem atividades ligadas a esta vertente, proporcionadas a toda a turma). As novas tecnologias, imprescindíveis também ao futuro dos cidadãos cegos terão o seu lugar, no devido tempo, ou seja, deverão ser mais incisivas a partir do 2º ciclo, dependendo da maturidade e potencialidades de cada aluno, mas sempre em paralelo com o Braille e após o domínio total deste, e nunca em sua substituição. Ler é para mim, sem dúvida, uma mais-valia, uma interação especial, única, insubstituível, que permite o “saborear” das palavras, de cada palavra, dos seus significados, do voltar um pouco atrás, do ler e reler, … Tal como André Maurois também deixou registado: “A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde.”

Como facilmente é percecionado, o enfoque na aprendizagem do Braille é aqui dado ao Docente de Educação Especial, que deve promover, antes de mais, uma inteligibilidade sobre a Filosofia da Inclusão, que conduza a uma consciencialização e responsabilização de toda a comunidade escolar e envolvente, para a problemática da Deficiência Visual, no caso concreto, promovendo ações de sensibilização diversas, com o objetivo de conseguir uma atitude compreensiva e positiva face à diferença, que promova uma cultura de cooperação e uma relação pedagógica de qualidade, interagindo e dotando de competências nesta área a Direção, o pessoal Docente diretamente ligado ao aluno, Assistentes Operacionais, alunos/turmas dos vários ciclos, Encarregados de Educação dos alunos, e outros. Estas aprendizagens e o domínio das mesmas marcam definitivamente toda a diferença no desenvolvimento dos alunos/cidadãos cegos.

Como na lenda indiana do Beija-flor, compete a cada um fazer a sua parte. As orientações que aqui apresento não são de modo algum uma utopia! Porque é este o trabalho que promovo e desenvolvo!...

Muito Obrigada pela vossa atenção,
Rosa Maria Afonso Pereira Brochado

 


 

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